Inclusão: por que ela é boa para as escolas

Falar de inclusão escolar é falar de direitos das crianças com deficiência — mas não é só isso. É falar também da saga de milhares de mães e pais que visitam colégios e mais colégios em busca de uma vaga para sua criança especial.

Na verdade, busca-se muito mais do que uma vaga. Busca-se qualidade de vida, aceitação, acolhimento, aprendizado e o melhor futuro escolar que for possível para aquele serzinho que a gente ama tanto.

Essa busca, muitas vezes, é dificultada por comentários negativos ou posturas inadequadas por parte de algumas escolas. É cada coisa que a gente escuta…

É uma vitória quando se encontra uma escola acolhedora e disposta a trabalhar, de verdade, pela vida escolar da criança. Os pais certamente comemoram. Mas… será que a inclusão escolar de crianças com necessidades especiais é boa somente para as famílias? Será que é um “favor” que nos fazem, ao acolher a nossa criança especial? Não, não é.

A inclusão de crianças com deficiências é boa também para as ESCOLAS. Neste texto, listo DUAS razões pelas quais os colégios (públicos e particulares) deveriam, até mesmo em benefício próprio, dar maior atenção à inclusão escolar de crianças com necessidades especiais.


  1. ESCOLA MAIS CAPACITADA PARA LIDAR COM TODOS OS SEUS ALUNOS

Imagine a seguinte cena: a professora tenta fazer com seus alunos uma atividade musical que inclui batucar nas pernas. Uma das crianças, no entanto, começa a batucar nos ombros.

Ué? O que deu nela? Vontade de contrariar? Vontade de ser diferente? Quer chamar a atenção? Ou será que a criança tem Disfunção do Processamento Sensorial (DPS)?

Não temos como saber 100%. A única certeza é a seguinte: se esta professora estiver numa escola experiente em lidar com crianças especiais, saberá reagir muito melhor ao comportamento deste aluno que batucou nos ombros enquanto todos os outros batucavam nas pernas.

Esta é uma das teses do livro The Out-of-Sync Child, de Carol Stock Kranowitz, que trata de Disfunção do Processamento Sensorial (DPS). Nele, a autora conta como foi transformador, para ela e outros professores de educação infantil, poder contar com uma consultoria em Integração Sensorial.

A Integração Sensorial, terapia muito eficaz para casos de autismo e paralisia cerebral, por exemplo, ajudou centenas de escolas nos EUA a lidarem não somente com as crianças com deficiência, mas também com os demais alunos.

“Eu passei a entender melhor o comportamento ‘misterioso’ de alguns alunos. À medida que meu conhecimento sobre DPS foi aumentando, minhas habilidades como professora cresceram muito também. (…) Passei a fazer em sala atividades benéficas ao desenvolvimento sensorio-motor de TODAS as crianças.”

(Carol Stock Kranowitz)

Investir em Inclusão pode parecer custoso ou trabalhoso demais, mas traz retornos positivos para a própria escola. Afinal, se os profissionais estiverem minimamente capacitados para lidar com crianças especiais, terão ainda melhores condições de ensinar eficazmente os demais alunos. Isso pode minimizar reprovações, reduzir problemas de interação entre as crianças e ajudar TODOS os alunos a terem melhores resultados. Qual escola não gostaria de incluir essas vantagens em seu portfolio?


  1. ALUNOS NEUROTÍPICOS TAMBÉM SE BENEFICIAM

Matheus, meu segundo filho (atualmente com dois anos e meio), já se acostumou a ir comigo levar o Paulo, seu irmão mais velho, às terapias de reabilitação neurológica (fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, entre outras). Atualmente ele se sente super à vontade nas várias clínicas que frequentamos — até insiste para ir junto! — mas nem sempre foi assim.

Nas salas de espera das clínicas, convivemos com crianças dos mais variados diagnósticos e níveis de comprometimento. Conhecemos desde casos leves até casos mais graves. Quando ainda era bem pequeno, Matheus ficava com medo quando via uma menina grande urrar alto, por exemplo.

Hoje em dia, ele não só cumprimenta as crianças que encontra nas salas de espera, mas as chama pelo nome para brincar. Essa experiência reverberou de forma positiva aqui em casa: mesmo sendo tão novo, ele passou a ter um jeito muito próprio de brincar e lidar com o Paulo. Eu, como mãe, fiquei maravilhada, pois vi os efeitos super positivos disso tanto no desenvolvimento do Paulo quanto na maturidade do Matheus.

A convivência entre crianças neurotípicas (= de desenvolvimento típico) e crianças especiais (que tenham algum atraso ou comprometimento) é boa para ambos os lados. Numa escola, esses benefícios podem ser ainda mais potencializados.

  • As crianças especiais saem ganhando porque experimentam a socialização, se sentem acolhidas e recebem, de outras crianças, estímulos importantes para seu desenvolvimento (diferentes dos estímulos que nós, adultos, conseguimos dar);
  • As crianças neurotípicas saem ganhando porque aprendem, desde cedo, a lidar com o diferente, a desenvolver novas maneiras de interagir com quem não fala, não ouve ou não enxerga, por exemplo. Essa necessidade de adaptação na socialização será extremamente importante no futuro das crianças neurotípicas. Se bem orientadas, elas se tornarão adultos mais bem preparados para enfrentar os mais diversos tipos de ambiente profissional, acadêmico e até familiar — e poderão colher os benefícios disso.

O QUE VOCÊ ACHA DESTE ASSUNTO?

Independente de seu filho ter ou não necessidades especiais, gostaria de te propor uma reflexão. O que você prefere: uma escola comum ou uma escola que invista (de verdade) em inclusão de crianças especiais?

Como pais e mães, devemos falar mais disso nas escolas. Devemos “nos meter mais” neste assunto, mesmo que não sejamos pedagogos. Afinal, isso influencia não só na escolha do colégio, mas também no tipo de educação que queremos dar aos nossos filhos e no quão preparados eles estarão para o futuro.

4 thoughts on “Inclusão: por que ela é boa para as escolas

  1. Otimo. Que bom ter trazido esse assunto à tona.
    Acho importante que as crianças aprendam desde pequenas a lidarem com as diferenças, respeitarem o outro, evitar o bulling.

    Muito bom o enfoque positivo voltado para a escola inclusiva e tambem a fundamentação bibliografica.
    Parabens.

  2. Ótimo texto e reflexão! É benéfico para ambos os lados mesmo. Vou compartilhar.

    Achei o máximo que o Matheus agora “não se espanta” mais com crianças diferentes. É bem isso, só convivendo com elas que percebemos o quão especiais podem ser, e que não há nada a temer <3

    1. O mais interessante é que ele, mesmo sendo tão novo, foi desenvolvendo um jeito de lidar com comportamentos ou situações diferentes. Algumas terapeutas já chamam o Matheus de “co-terapeuta”, kkkk. E isso com dois anos e meio! Olha como esta convivência é positiva! Obrigada pelo comentário e por compartilhar 😉

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